Estrutura x Idéias

Enviado por Ivan Alonso Quesada, sex, 10/10/2008 - 17:29

Tem se falado aos montes por estes dias dos 20 anos da Constituição Cidadã, com inumeráveis homenagens ao Dr. Ulysses Guimarães, entusiasta e timoneiro da Constituinte, como foi das Diretas-Já poucos anos antes. O que eles não dizem nestas homenagens e citações todas é que pouco mais de um ano depois da grande festa da promulgação da constituição democrática que selou no porão o regime militar o mesmo Dr. Ulysses era submetido a uma vexaminosa derrota na disputa presidencial.

Depois de ver sucessiva degradação da vida política confesso ter voltado a sentir alguma esperança quando vi a composição da Câmara Municipal daqui de São Paulo. Depois de muito tempo voltei a achar que aquele lado republicano e democrático de Maquiavel tinha razão quando dizia que o povo pode se enganar nas questões particulares, mas não nas gerais e tem capacidade de aprender com o tempo.

As celebridades e os candidatos saídos de algum show de aberrações não conseguiram ganhar o voto de protesto – as poucas exceções confirmando a regra mais geral porque foram pessoas que de um jeito ou de outro acabaram fazendo algum tipo de política. Este foi por certo o grande avanço destas eleições, revertendo a perspectiva de degradação – ou quem sabe até “monstrificação” dos parlamentos. Já podemos esperar que momentos nos quais Dr. Enéas e Clodovil sejam campeões de voto tenham ficado no passado.

É preciso não ter demasiadas ilusões a este respeito, afinal por outro lado ficou clara a tendência de parlamentares serem mais eleitos pela estrutura que forem capazes de montar, em especial aqueles parlamentares que foram buscar sus votos na periferia. Diversos bons nomes perderam-se neste processo, ao mesmo tempo em que parlamentares de expressão duvidosa quanto ao conteúdo elegeram-se ou foram reconduzidos. Não seria surpresa se a candidata petista estivesse tão certa da vitória que preferiu “investir” na construção de uma Câmara dócil, em particular quanto à própria bancada de seu partido.

Há muito tempo falo sobre a importância da classe média manifestar-se com clareza politicamente e sinto pela primeira vez depois de muito tempo que desta vez a classe média fez as suas escolhas e resolveu votar com critério em muitos lugares. Não vou culpar o eleitor privado de quase tudo, inclusive de esperança, que optou por fazer uma escolha não motivada pela política.

Por mais que sinta asco por aqueles que transformam seu voto em mercadoria é possível compreender a racionalidade tortuosa por detrás deste raciocínio quando há sucessivas promessas de um mundo melhor jamais realizadas. A grande dúvida crescente era se o eleitor de classe média, que não pode justificar pela miséria a sua venalidade deixaria a plena condição humana de cidadão para seguir a idiotia – no sentido grego original do termo que e a designação daquele que não participa das Assembléias da pólis porque está mais preocupado com suas questões particulares – ou se iria finalmente reagir e votar com mais critério.

Depois de anos sinalizando que iria para o abismo finalmente algo se move no sentido contrário. No dia a dia da campanha senti o grande peso que tiveram as avaliações que foram feitas sobre o trabalho dos vereadores paulistanos. Um dos efeitos disto foi paradoxalmente surpreendente pois levou a uma renovação relativamente pequena da Câmara - causado também pelo “efeito estrutura” mencionado antes – e a rejeição da maior parte das celebridades e aberrações – em sua maioria com resultados pífios – e numa redução da influência do “cabresto evangélico” como força eleitoral – eleitoral e na política, diga-se de passagem – em ascensão.

A nova Câmara paulistana que emerge deste processo terá esta forte contradição interna, de um lado parlamentares eleitos através do “voto de estrutura” representando em especial as regiões mais pobres e periféricas e de outro parlamentares “de conteúdo” representando principalmente as regiões de classe média onde obtiveram boa parte de seus votos. O resultado desta contradição íntima ainda não é claro, até porque só deve se definir de forma mais clara na medida que o próximo prefeito seja escolhido, mas já tem data certa para manifestar-se com clareza e dar os sinais de como irá influenciar o futuro da Câmara: processo de escola do novo presidente da Câmara, atualmente ocupada pelos populistas de direita do “Centrão”. Quando o resultado desta escolha for conhecida será possível ver com mais clareza para que lado o parlamento paulistano andará.

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