Modernos, modernistas e modernosos
Alexandre Gomes: Do blog Poder da Palavra
Paranóia E Mistificação: (a esquerda) quadro de Alexei Von Jawlenski de 1912 copiado no "Homem Amarelo"de Malfatti (a direita) em 1916, gerando a polêmica com Monteiro lobato
A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. (Monteiro Lobato, Paranóia ou Mistificação)
Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos modelos copiados das últimas modas européias, francesas em particular. Moderno de fato era a crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos todos.
Talvez na sua fonte os movimentos pretendiam revolucionar as linguagens artísticas tivessem na sua origem um elemento inovador, mas quando desembarcaram aqui ao Brasil eram só mais uma forma de academicismo vulgar de burgueses sem ter mais o que fazer para salientar-se. Pouca coisa pode demonstrar o caráter de "farsa"da Semana de 22 com o fato de que os modernistas pagaram a estudantes para vaiá-los e atirar coisas no palco, já que falharam até em provocar o choque que desejavam, mas tinham dinheiro sobrando para comprar mídia.
Infelizmente pouca gente hoje lê os originais, os textos fontes. Contentam-se em pontificar com o que ouviram falar do amigo do primo que ouviu alguém comentar sobre o que leu na orelha do almanaque citando um comentarista que leu uma resenha de um livro mencionando a obra original, às vezes até conformam-se com algo ainda mais vago como as teses e dissertações de crítica literária.
Garanto que qualquer um que ler o artigo Paranóia ou Mistificação de Lobato - fruto do mito que ele era contra a "modernização das artes" poderá ver claramente que a crítica "emiliana" concentra-se sobre dois pontos:
O prmeiro é a absoluta falta de sinceridade que ele vê na obra de Anita Malfatti:
nos manicômios essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura.
Em segundo lugar há uma crítica também severa a certa arte que para se proteger é apresentada como hermética, capaz de ser compreendida por experts, análise que Hauser, por exemplo, também faz várias décadas depois, demonstrando a vitalidade e visão de Lobato. Para ele toda a discussão em torno da arte modernista é um grande jogo de comadres se promovendo uns aos outros, um pacto corrupto:
Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavreado técnico, descobrem na tela intenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista; a conclusão é que o público é uma besta e eles, os entendidos, um grupo genial de iniciados nas transcedências sublimes duma Estética Superior.
A verdade é que a grande maioria do que o país produziu de melhor em todos os campos da ação intelectual - Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Paulo Freire, enfim todos que ousaram pensar de forma original, mesmo pagando o preço da originalidade que é o erro ocasional nas generalizações, sobre os problemas brasileiros - são de uma forma ou outra herdeiros ou parentes desta vertente que começa em Lobato.
É preciso incluir aí os próprios modernistas que deram certo, porque a oposição entre Lobato e os modernistas é parte mito e parte mistificação. Mario e Oswald de Andrade, por exemplo, logo deixaram de lado a bobagem "modernosa"voltada para a forma e a técnica, que é o centro da crítica de Lobato, para incorporar através do Movimento Antropofágico uma proposta que é muito similar aquilo que Lobato lhes recomendava fazer vários anos antes.
Não nego que Lobato, até como pintor frustrado que era, tenha algumas visões antiquadas sobre as artes plásticas em especial. Neste ponto não foi capaz de compreender a mudança na linguagem do meio que ocorria. Em parte a crítica não é completamente inadequada porque a mesma falta de transcendência é apontada como a chave para a desumanização da arte por Ortega y Gasset, filósofo spanhol que alguns anos depois tenta fazer com o pensamento espanhol a mesma revolução de compreensão original.
Uma das questões importantes a se guardar é que este debate entre os verdadeiros modernos - aqueles que de fato inovam, acrescentam algo ao que já existe - os modernistas - aqueles que fazem do novo profissão de fé simplesmente porque é novo então deve ser necessariamente bom - e os modernosos - impostores e charlatões de toda espécie que se escondem por detrás das cortinas de fumaça sectárias, todo este embate, ainda está acontecendo por todo lado, não acabou em 22. Até por isso vale a pena reler os textos de Lobato comentando o assunto, no original, é claro.