O machão e a distinta senhora

Enviado por Ivan Alonso Quesada, qui, 10/23/2008 - 01:00

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O rei Arthur era impotente e por isto convida um apaixonado mas hesitante Lancelot à cama da sua Guinevere na esperança de produzir um herdeiro. O resultado é uma terrível praga na qual a infertilidade do rei se reflete na infertilidade do país. Arthur tenta purgar através da busca do Graal. É nesta referência mitológica que me amparo para fazer algum comentário sobre toda a polêmica em torno da propaganda da candidata Marta Suplicy indagando sobre a vida privada do candidato Gilberto Kassab.

Juro que o desfecho que eu gostaria de ver para esta história seria o candidato atingido vindo a público e dizendo “e se eu for gay, qual é o problema? No que isto me impede de ser um bom prefeito?”. E, do outro lado, a candidata demitindo em desgraça os marqueteiros que tiveram a idéia brilhante de trazer a questão à baila da forma mais covarde possível. No anúncio do defenestramento do marqueteiro a candidata diria: “não vou sujar a minha história pessoal e política traindo um ideal de tolerância pelo qual sempre lutei!”.

Quem sabe ela até despacharia de volta a Brasília o chefe de gabinete do presidente Lula que anda comprando almas de clérigos católicos e evangélicos através sabe-se lá que recursos faustianos em um esforço de compensar a resistência deles às posições de Marta no passado quanto aos direitos reprodutivos das mulheres e direitos civis dos homossexuais. Desconheço as habilidades de argumentação teológica do chefe de gabinete de Lula, mas pelo sucesso que tem obtido – como demonstra o panfleto assinado por padres e distribuído à saída das missas e os eventos convocados por pastores diversos, ambos visando dar apoio à Marta, ou se aplaude a profunda capacidade de argumentação e exegese de Carvalho ou se comete a impiedade de imaginar que o círculo infernal onde penam os culpados de simonia se encheu um bocado nesta semana.

Infelizmente é mais fácil encontrar o Graal do que ver qualquer destas coisas acontecerem. Kassab reforçará a propaganda para reforçar sua masculinidade – “tem um monte de mulher querendo casar comigo”, como ele disse na Sabatina da Folha. Marta continuará tentando crescer na resistência ao nome d adversário que foi maquiavelicamente plantada na mente dos mais conservadores e reforçada pelas conversas ao pé do púlpito de Carvalho. Manterá os marqueteiros e seguirá dizendo que não sabia.

A droga da política como profissão é esta, leva os políticos a seguir a máxima da propaganda nazista – da qual deriva todo o lixo chamado de propaganda política, termo antitético já na essência – de mirar o indivíduo mais beócio da multidão e alimentar nele os sentimentos mais baixos. Entre ser sincero e realmente liderar e ser comandado pela multidão através das pesquisas a imensa maioria dos políticos prefere o caminho que leva a vitória fácil.

Para que não pareça que tudo está perdido uma coisa boa surgiu desta discussão nebulosa. Felizmente não somos os Estados Unidos e a tentativa dos marqueteiros brasileiros de nos transformar numa caricatura de wasp tropical, assim poderiam seguir os manuais americanos de marketing político, sem precisar pensar em muitas adaptações, fracassou porque a sociedade brasileira disse de forma muito clara que não está disposta a se rebaixar. A vaia estrondosa à propaganda de Marta - mesmo seguida de um quase silencia murmuriento do segmento LGBBT e dos aplausos discretos de muitos petistas que já perderam a vergonha de fazer qualquer coisa que lhes dê a chance de chegar ao poder demonstram que a sociedade civil é mais madura, consciente e tolerante do que aqueles que deveriam ser a sua vanguarda.

Na esperança que este elevado grau de rejeição dos truques baixos, é onde está escondido o Graal capaz de devolver a fertilidade aos líderes. Não adianta procurá-lo na bolsa cheia de ouro mal ganho do mago Simeão.

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