O voto é profano
Em resposta ao post O Voto é Sagrado no blog Poder da Palavra
Um dos principais argumentos dos patrícios romanos para não atender à reivindicação de um “tribuno da plebe” que defendesse os direitos dos romanos não-nobres era a ausência de provisão deste cargo nas leis sagradas. Mesmo quando tiveram de ceder à pressão o cargo de tribuno manteve um caráter ímpio e a própria inviolabilidade do tribuno – aponta Foustel de Coulanges – era motivada por este caráter “impuro” da função.
O mais antigo dos truques para afastar parcelas da população do processo de decisão é a invocação de razões “sagradas”, das quais o caso do tribuno da plebe é apenas um pequeno exemplo. Com todos os pesares, lamentações e retrocessos, ainda assim, a história política da humanidade é a amplificação da proporção da população que detém os direitos de cidadania. Cada um destes passos históricos foi antecedido e sucedido por resmungos teológicos contra o pecado, heresia ou blasfêmia que se estava cometendo ao aceitar aquele círculo adicional de pessoas ao universo dos que deveriam decidir.
A noção de que a política não é uma coisa que deva preocupar o homem comum, devendo estar reservada às pessoas importantes tem mil disfarces – em geral à direita, mas também nas diversas teorias de esquerda de vanguarda. Aqueles que estão desprovidos da “unção divina” – seja ela o nascimento na casta adequada ou a posse do conhecimento marxista-leninista – não devem participar da vida política sob o risco de coisas terríveis acontecerem por terem sido violadas as leis sagradas do universo, é esta a mensagem íntima de todos estes tipos de argumentos para impedir, controlar ou manipular a vontade da população.
É por sito mesmo que o voto é profano, é uma deliciosa afronta a todos que desejam manter o controle das decisões em algum grupo restrito.
A “pièce de résistance” dos argumentos desta matiz aponta para as péssimas escolhas que a massa faz quando tem poder de decidir ou invoca as razões obscuras e mesquinhas com as quais toma a sua decisão. É verdade que tem havido inúmeros desastres, mas em primeiro lugar que não menos do que ocorreram em tempos passados quando em nome de alguma divindade – ao menos em tese segundo as teorias de escolha divina da idade Moderna – escolhia lunáticos, psicopatas e outros degenerados para ocupar tronos diversos.
Em segundo lugar é preciso considerar - como fazem Stuart Mill e Maquiavel, ambos nada suspeitos de serem “esquerdistas” ou libertários – que sempre há uma evolução pelo aprendizado neste processo de escolha. Quase sempre as más escolhas – Collor no Brasil, Walesa na Polônia, Yeltsin na Rússia, Chavez na Venezuela – ocorrem depois de longo tempo de escolhas restritas, processos controlados. Enfim, com o passar do tempo a população vai aprendendo a escolher, os escolhidos vão aprendendo a respeitar as vontades da população ou são afastados, uma prova disto é que nestas eleições as celebridades, os personagens de shows de horrores e diversos pastores de gado eleitoral foram derrotados em eleições municipais.
Outra faceta deste argumento – que também não é nova, mas remonta às críticas dos filósofos à democracia ateniense e ressurge de mil formas – é a d que a “massa” vota por interesse e o pobre infeliz miserável logo transforma seu voto em mercadoria e vota por interesse. Não nego que a venda de votos e certa “profissionalização” da política – no mau sentido d termo - estejam se expandido a despeito de todos os esforços da legislação para cercear estas práticas.
É preciso pensar, no entanto, se este comportamento vil deve-se à incorporação das massas ao processo político de decisão ou, pelo contrário, à profunda desilusão e desesperança que rondam os lares de todos. Desesperança provocada em sua quase totalidade pelas promessas não cumpridas, pela corrupção dos eleitos, pelas mordomias, pelo afastamento entre eleitor e eleito, pela ineficiência da máquina pública, enfim, se a venda do voto não é ela própria uma resposta enérgica aos crimes cometidos pela elite política de todas as ideologias. Basta ver que a descrença é generalizada a ponto dos próprios políticos preferirem eleger esposas, filhos e outros agregados a abrir qualquer brecha para alguém que poderia se tornar um rival, demonstrando a tendência à dissolução de qualquer grupo político. Nào chega nem a ser estranho que seja um adversário extremo da plebe - Coriolano - que protagonize um dos momentos mais delicados da instituição quando suborna o povo para eleger-se tribuno.
Se nem os políticos – ricos e poderosos todos eles - confiam o suficiente em seus pares próximas para formar um grupo não se pode culpar o infeliz que na expectativa de não receber absolutamente nada e ficar ao completo desamparo tenta equivocadamente obter alguma vantagem palpável. A culpa, aqui, não é da massa, mas exatamente da elite política sociopata, demagógica e descompromissada de fato com qualquer mudança de atitude que os obrigue a pensar em alguém além de si mesmos.
Se pode haver alguma esperança ela não residirá na interrupção da tendência histórica de incorporação de parcelas cada vez maiores no processo de tomada de decisão, mas, ao contrário, na radicalização deste processo de forma a garantir um controle efetivo da máquina pública pela sociedade e pela adoção de políticas de governança corporativa que permitam uma voz efetiva a parcelas maiores da população, em especial naquelas áreas específicas que são atendidas. O tempo e o processo de aprendizado farão o restante por si, jogando por terra todas as barreiras agradas que tentam manter o poder nas mãos de alguma casta de “iluminados”.