O Voto é Sagrado

Sobre a fé

Já fui de fé, liturgia e cânticos, ramos nas mãos e palavras de ordem na praça. Tinha até novena de véspera de eleição. Rezas, mais cânticos, duas fichas de orelhão e um papelucho com o telefone de alguém que devia ser contatado caso fôssemos pegos na boca de urna.
Era reconfortante a ignorância de agir em nome da fé e se deixar levar pela unção da retórica. Sem questionamentos, sem medo de errar.
Mas quando se passa do discurso à vivência, da leitura distante e romantizada dos oprimidos à condição mesma de exclusão e carência, a coisa toda muda. E o terço ficou pra trás, esquecido nalguma gaveta com fotos da juventude e contas não pagas.
Pareceu uma vida inteira. Tempo para começar uma nova vida. De sagrado mesmo, só feijão na mesa pro filho.
Só que uma hora a vida cobra uma atitude ou no mínimo te oferece outra chance de acreditar. Assim começaram as palestras, as plenárias, os crachás. Tantas propostas e conflitos. Bandeiras nas mãos e palavras de ordem na praça. Hoje tem reunião de planejamento no boteco e muitos amigos para passar um torpedo, caso seja pego na boca de urna. Quase tudo igual.
E aquele conforto da ignorância? Graças à Deus ficou pra trás. Hoje meus erros são só meus e meu voto é ainda mais sagrado.

(Ismênia de Tebas)

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